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domingo, 9 de junho de 2013

BRAZIL: UM CONTO.



O EDREDOM
Marina da Silva


Thaís abriu e fechou a porta do apartamento maquinalmente jogando descuidada as chaves sobre o aparador. Se lhe perguntassem não conseguiria explicar como dirigiu seu carro até sua casa. No corredor deu de frente com a mãe que chegara do trabalho e saía enrolada numa toalha de banho.
__Oi filha! Aconteceu algo?
A menina muito pálida nada respondeu entrando no quarto e batendo desleixada a porta.
__Essa não é minha filha! Pensava a mãe aflita enquanto se vestia. Nunca vira a menina daquele jeito: os olhos perdidos, amarela e andando tal qual um zumbi. Bateu na porta e como não obteve resposta entrou.
Sobre a cama, o edredon que Janaína, sua prima e melhor amiga lhe dera para compor o enxoval. Era uma peça cara e fina, em tom pastel, com barrados de tira bordada no mesmo tom. Sentada, as costas apoiada no guarda-roupa a menina soluçava incontrolavelmente.
A mãe nada disse, mas pressentiu que algo terrível acontecera entre os noivos e logo a uma semana do casamento.
__Mãe, porque dói tanto? Apertava a garganta.  Está doendo muito mãe! Grossas lágrimas pingavam no frio granito.
__Eu quero morrer! Eu quero morrer!
Sem nada dizer a mãe sentou-se ao seu lado, tomou-a nos braços afagando seus loiros cabelos.
__Vai passar meu anjo! Vai passar! Repetia automaticamente querendo pegar naquele abraço toda a dor da filha para si, protegendo-a a qualquer custo.
__Eles estavam juntos... As palavras passavam rasgando a garganta dolorida. Ninguém me contou mãe...
A mulher estremeceu ao entender o que tinha ocorrido.
__Eles estavam juntos e se atracando no almoxarifado da firma... Eu vi mãe! A voz quase inaudível vinha aos solavancos entrecortadas pelos soluços.
__Psist! O som saiu sibilando baixinho entre os lábios da mãe. Não vamos falar mais nisso! Foi melhor agora do que depois do casamento. Venha pro meu quarto, vou lhe dar algo para parar a dor.  E aqui colocou a mão sobre o peito da garota.
A menina se deixou levar como um molambo ou boneca de pano; tomou obediente o comprimido dado pela mãe e gostou desse aconchego ali.
__Fica aqui comigo mãe! A mãe de lá não desgrudou.
Quando a menina acordou já era noite e chovia muito. Do quarto ouviu a mãe mexendo na cozinha. Então saiu de fininho, arrastando atrás de si o edredon, tal qual, quando ainda criança, arrastava pela casa seu amado cobertor. Thaís abriu a portaria do prédio foi para o asfalto e abriu ali o edredon como se cobrisse um leito nupcial. Ajeitou com cuidado as fronhas e subiu novamente para o apartamento.
Da janela da cozinha a mãe assistia a tudo sentindo-se sangrar por dentro ao ver tamanha dor.
__Mãe você pode me dar um comprimido para eu não acordar nunca?
A mulher abraçou-a, acariciou-a por longos minutos e estão o choro a ambas voltou.
Lá embaixo, indo ao supermercado do bairro depois de sair do serviço, uma mulher e sua filha estranham ver um enorme pano branco esticado no asfalto e passam rente ao meio fio sem darem conta do que seja aquilo e quem ali o colocou.
Na volta, a motorista não resiste, pára o carro, desce e estupefata percebe que o asfalto fora coberto com um edredon. Já passam das dez da noite; ela olha intrigada as janelas dos prédios e sem saber mesmo porque, recolheu triste a peça totalmente encharcada pela chuva.
__O que será que aconteceu? O que fez alguém estender aqui um edredon? Pensava intrigada.
No dia seguinte avaliando os estragos feitos pelos pneus na peça quando ela a atravessou, uma pergunta exigia, mas não havia resposta: qual seria a triste história daquele edredom.