Postagens populares

Pesquisar este blog

Carregando...

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

BRAZIL: Mordendo a língua!

RITOS DE PASSAGEM
 
www.google.com.br/images
Sérgio Antunes de Freitas
 
Ritos de passagem são fatos existentes em todas as culturas, nos quais os indivíduos mudam de status em seu grupo social ou na sua forma de pensar e agir, considerados, nessa análise, os aspectos espirituais da existência humana.
Para exemplificar esses casos, em nossa cultura ocidental, podemos citar o batizado, a crisma, o casamento, para os católicos.
A paternidade, a maternidade e a morte são ritos para todos os seres humanos nas mais diversas culturas ou crenças.
Com a morte, o indivíduo passa desta para a melhor. Será? Tomara, por ser nossa única certeza!
O status do indivíduo também muda de “contribuinte” para “de cujus”. Muda até o da esposa, de casada para viúva, às vezes, alegre!
Para tergiversar, nem sempre percebemos nossa mudança de graduação na escola da vida. E vamos galgando os degraus da maturidade desde o primeiro beijo recebido até o derradeiro. 
 
www.google.com.br/images. Animal!
 
Dias atrás, degustando um suculento bife, meu sensor automático não discerniu o tipo de carne e mordi a minha língua com força incomum, como se estivesse rasgando a carne de uma caça no tempo das cavernas.
“Ela ficou igual à dos répteis, bifurcada, mas lateralmente” – pensei. Como são potentes nossos caninos e pré-molares! Que desperdício! Poderíamos tirar energia elétrica desses movimentos.
Naquele momento de emoção intensa, só me vinha à cabeça uma esperança, declamada mentalmente: - A língua é de rápida cicatrização, a língua é de rápida cicatrização, a língua é de rápida cicatrização!
Essa dor é muito indecente! A gente não consegue raciocinar. A única certeza é a de que a sensação, definitivamente, não é mesma de se deliciar com uma feijoada completa.
O ocorrido foi praticamente um rito de passagem!
Passagem para o inferno. E com sonoplastia: - Nossa, que cara feia! A comida está tão ruim assim?
Por isso, já um pouco mais indolor, almejei buscar conforto na bíblia, mas seria perigoso, pois se fosse ler em voz alta, como fazem esses pastores não muito oportunos, mas oportunistas, eu emitiria grunhidos de língua desfiada, com o risco de prisão por atentado à moral e aos bons costumes. Ou de internação em hospício.
Lembrei-me, inclusive, de uma cena que assisti no interior da Mata Amazônica. Um barulho me chamou a atenção e olhei para uma árvore. Vi um macaco subindo pelo seu tronco de modo aterrorizado. No chão, uma cobra de porte médio se contorcia. Achei que o macaco havia conseguido mordê-la e escapar da morte, fato muito raro.
Hoje, tenho certeza não poder existir outra versão. Ela mordeu a própria língueta, deixando a presa escapar e, lá do último galho, observá-la dançando o “rap”.
 
www.google.com.br/imagem 
 
A mordedura no músculo lingual não é esquecível como a dor do parto natural, segundo dizem as ex-parturientes. Depois dessa paridela da língua, a gente fica pensando em quais razões levam a tal desfecho, de modo à coisa não se repetir jamais.
Será que existem comidas mais tendentes ao erro da mordida? Purê de batata? Azeitona? Tremoço? Cudiguim?
Ou a razão está em algum plano metafísico? Sabe aquela estória de quando uma pessoa diz algo desagradável e a outra a manda morder a língua? Ou apenas pensa?
Não dá para acreditar nessas coisas. Nem mesmo acreditar em um determinismo no qual, dizem, estava escrito nas estrelas que, tal dia, fulano iria morder a língua com força.
Não obstante, me veio um arrependimento. Eu não devia ter chamado aquela macumbeira de goooooooooorda!

Sérgio Antunes de Freitas
10 de fevereiro de 2013