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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

BRAZIL: CINQUENTA TONS DE CINZA... SEM CENSURA!


A CORROSÃO DO CARÁTER EM 50 TONS DE CINZA.

Marina da Silva

Para apreender e compreender a ideia por detrás do título deste artigo é necessário estar nu [sem trocadilho], é preciso despir, literalmente, deletar séculos de repressão e recalques, freudianamente falando, morais, éticos, culturais, religiosos - não exatamente nesta ordem - e de muitos outros dogmas e (pré)conceitos arraigados no mais profundo e abissal abismo da alma.
A corrosão do caráter e 50 Tons de cinza são títulos de dois livros interessantes, cada qual ao seu modo e que possuem uma interface comum: a atual fase capitalista globalizada ou Acumulação flexível de capitais e seus efeitos e “defeitos” colaterais tanto sobre o modo de produzir e gerenciar a produção como nas relações sociais do trabalho e relações humanas como um todo!


www.google.com.br/images 

Escrito pelo economista Richard Sennett e publicado em 1999, A corrosão do caráter traz a baila discussões sobre as “Conseqüências pessoais do trabalho no novo capitalismo”, tema também abordado com propriedade e exaustivamente por David Harvey em 1989 na obra “A condição pós-moderna”.
Assim, como a acumulação flexível não é “novidade” na obra de Richard Sennett, o tema erotismo/pornografia/sexo/masoquismo/sadismo tratado nos 50 Tons de cinza não é a “descoberta do novo mundo da sexualidade”!
Mesmo antes de Freud [1856-1939] tratar a categoria sexualidade como “pulsão de vida” muitos outros já usavam e abusavam do assunto: Boccaccio [1313-1375];  Marquês de Sade [1740-1814]; Bocage [1765-1805];  e até Carlos Drummond de Andrade [1902-1987]  topou no meio do caminho a pedra da tal sexualidade! Isto sem necessidade de downloading do Kama Sutra e a vida em Pompéia! 
"Ao delicioso toque do clitóris, 
já tudo se transforma, num relâmpago.
em pequenino ponto desse corpo, 
a fonte, o fogo, o mel se concentram.
vai a penetração rompendo nuvens
e devassando sóis tão fulgurantes
que nunca a vista os suportara
mas, varado de luz o coito segue.
e prossegue e se espraia de tal sorte
que além de nós, além da própria vida,
 como ativa abstração que se faz carne, 
a ideia de gozar está gozando". o amor natural. Drummond


Mosaico a partir de www.google.com.br/images

Mas então? Qual é o mérito de A corrosão do caráter e 50 Tons de cinza? O que os liga visceralmente?
Em primeiro lugar a linguagem: simples, fácil, direta, clara, rápida e despojada, dispensando ajuda de manuais científico-econômico-filosóficos ou dicionários para se tornar inteligível, característica da fase atual, bem cara século XXI, principalmente na trilogia 50 Tons de E. L. James, que além de fácil, é simplória, repetitiva, chula e pobre, literariamente falando.
Ambas as obras tem como tema a flexibilidade. Sennett, como a maioria dos pensadores atuais enfatiza a flexibilidade como conditio sine qua non da acumulação capitalista desde o fim da Gold Age, fase de recuperação econômica da Europa e Japão após a Segunda Guerra mundial, ascensão dos Tigres asiáticos e retorno da onda neoliberal.
A ênfase dada à flexibilidade muda não somente a forma Fordista/taylorista de produzir, distribuir e comercializar mercadorias como altera o caráter do trabalho (uso intenso de tecnologias de informação, automação com base na microeletrônica, robotização, bio-engenharia, etc), mas também a vida do trabalhador, sua personalidade, a construção de sua identidade e relações pessoais e sociais!
Estas características flexíveis são passíveis de ser capturadas na trilogia E. L. James em 50 ou mais tons de cinza! A primeira delas é o senso de oportunidade ou talvez...oportunismo?! E.L James, na onda fanfiction, isto é, azarar ou levar vantagem sobre a arte alheia, resolveu numa grande sacada usar a obra de Stephenie Meyer, a trilogia Crepúsculo e criar uma versão pornoerótica do triângulo amoroso entre Edward Culen (vampiro), Jacob (lobisomen) e Bela Swan (adolescente desajustada e donzela indefesa). A aposta não apenas vingou como ganhou vida própria no site da autora e contratos de publicação e versão para cinema...milionários! 
www.google.com.br/images. A trilogia 50 tons já desbancou Paulo Coelho, Sthefenie Meyer, J.K. Rollings, campeões de venda e bilheteria!

Quem não arrisca não petisca, diz o dito popular e correr risco é uma das características da acumulação flexível e tema do capítulo 5 em A Corrosão do caráter!
Mais do que dantes o mundo capitalista, exacerbadamente individualista, divide as pessoas em vencedores e fracassados. Rigidez, repetitividade, rotina, longo prazo, acomodação estão ligados ao passado, a velho, ultrapassado, obsoleto, o mesmo que fracasso, ou seja, produção em massa Fordista/Taylorista. Já flexibilidade, inovação, criatividade, alto risco, fluidez, desapego, juventude, empreendedorismo, imediatismo são características da atualidade – produção Toyotista e variantes personificada em Christian Grey, 27 anos, vencedor, empreendedor, criativo, inovador, imediatista, bilionário e CEO da Grey Enterprises Holdings Inc! Sr. Grey é o cara...das aquisições e fusões e especulações!
www.cinquentatonsdecinzabr.com. O melhor vídeo de humor no youtube satirizando  50 tons! 

Anastásia Steele representa flexibilidade e aventura. Disposta a correr risco numa relação sem “flores e corações” aceitando um contrato de alto risco que a encarcera, amarra, amordaça, fere e a submete aos desejos sado-masoquistas de Christian. Virgem que mal sabe o que é sexo baunilha”, Ana é  seduzida e quer experimentar o novo: “sexo sacana, bruto, duro e depravado” no “Quarto vermelho da dor”!

Se no Fordismo/taylorismo o tempo rotinizado,  a repetitividade, o longo prazo permitiam forjar laços fortes, pessoais, sociais e com a empresa, construir uma história de vida, o imediatismo, o curto prazo, a fluidez e flexibilidade atual forjam laços sociais e pessoais frágeis, superficiais e degradados, afirma Sennett.
O dominador Sr. Grey é intocável; suas relações com o sexo oposto se dá de forma “pervertida”, através de contratos de confidenciabilidade e de “trabalho”, o que lhe garante que nada “grudará” nele!
A forma de abordar uma parceira é inovadora: um contrato de serviços de curto prazo (3 meses) onde ele, o Amo, tem a obrigação e dever de cuidar (saúde física, bens materiais) e satisfazer sexualmente a mulher levando-a a conhecer os limites de prazer do próprio corpo numa relação de trabalho sadomasoquista de submissão total, banhada pelo luxo e riqueza restritos aos "vencedores"!
www.google.com.br/images. "Eu posso!"

Curiosidade, flexibilidade, risco, busca do novo é traduzido na personagem de Ana, universitária, classe média C, colaboradora part-time que desaba liberalmente de quatro e de amores numa entrevista com o inacessível Sr. Grey. Graduada em Letras, a Srta. Steele cai como luva no papel de escrava sexual, ops, submissa, o que dá no mesmo!

“Embora de verdade, quero saber? Quero explorar esse mundo do qual não sei nada? (...) Estou segura de que quero saber até onde chega a depravação de Christian?)Livro 1. p.143

Mosaico a partir de www.google.com.br/images. LUXO INDECENTE, IMORAL, CARÍSSIMO, ENFIM, SONHO PARA "VENCEDORES"! Aos mortais sobram as falsetas, os genéricos, os produtos pirateados MADE IN CHINA!


Tanto D. Harvey como R. Sennett percebem que na Acumulação flexível há a formação de um grupo seleto de trabalhadores, altamente qualificados para quem são destinados produtos e serviços de altíssima qualidade e luxo! E. L. James não só acerta com o “sexo depravado” como dá um maravilhoso golpe de mestre: faz da sua trilogia um catálogo de vendas! A cada “...ida”, e, a média são três relações sexuais por capítulo, E.L James faz questão de divulgar marcas, lojas requintadas, etiquetas famosas atreladas ao seu preço! Anastásia não consegue esconder o deslumbramento com a riqueza de Christian embora tenha pruridos moralistas; teme ser taxada de interesseira ou mera prostituta de luxo! “Meu subconsciente franje os lábios e articula a palavra vadia”.
Mosaico a partir de images www.google.com.br.  Precinhos OBSCENOS!


Não existe mais “longo prazo” e as novas tecnologias afetam drasticamente a percepção tempo/espaço. No capitalismo flexível tudo é para ontem, as respostas devem ser imediatas, inovadoras, criativas e gerar lucros e isso só é pertinente aos jovens! É a hora e a vez da geração Ypisilone, que enxerga os problemas de cima, a frente do seu tempo e dão respostas imediatas para facilitar e satisfazer a vida nas metrópoles e de quem tem dinheiro! Sr. Grey tem perfil e todas as qualidades da acumulação flexível: juventude,(bilionário antes dos 30 anos); diversificação de negócios [de tecnologia de informação, passando pela construção naval, cadeia de salão de beleza até o arriscado jogo de especulação com aquisições, fusões, destruição ou reengenharia de empresas e mesmo especulação alimentar]. Sr. Grey é o player master of universe!
www.google.com.br/images. Febre mundial entre as mulheres, a trilogia 50 Tons invade o cinema. Acima a autora e  famosas, entre elas, algumas cotadas para cair na pele de Ana Steele!

A mudança do caráter da produção Fordista/taylorista baseada na produção de massa, rotina, repetição, mesmice para a acumulação flexível Toyotista/variantes ágil, flexível, rapidez, diversidade de produtos pode ser detectada em 50 Tons de cinza na distinção entre sexo baunilha (rotineiro, tradicional) e sexo depravado, sacana (ritmo acelerado, explosivo, cheio de possibilidades kama sutra/Marquês de Sade, insaciável) temperado com muita dor! Novas posições e experimentações no sexo, nova abordagem com ênfase e preocupação com o prazer feminino, afinal, mais de 50% da população economicamente ativa no mundo hoje é formada por mulheres!
www.google.com.br/images. kkkk 50 Tons virou moda! As mulheres adoram, os homens odeiam, ignoram, temem ou fazem piadas machistas!

Livro de mamães, vinte filmes pornôs só que escritos, sessão Band Privê, livro de mulherzinha, livro de putaria e obscenidades! Estas e muitas outras definições pejorativas acompanham a trilogia 50 Tons de cinza, principalmente da boca de quem não leu e não gostou!
Entretanto, todas as características da acumulação flexível tematizada por Harvey e Sennett em A condição pós-moderna e A corrosão do caráter estão presentes nos 50 tons de cinza: inovação, linguagem high tech, namoro virtual, trabalho de risco.  Grey comanda virtualmente seu império em casa e através do seu Blackberry e MacBook Pro da Aple.
www.google.com.br/images. "50 Tons de cinza? Eu não leio porque tenho medo de me apaixonar pelo cara!" Afirmação de um homem MMM-movimento machão mineiro!kkkkkkkk

 Sr. Grey quer “ficar”: não namora, não quer romance (longo prazo), gosta de dominar, submeter, controlar tudo e todos ao seu redor; quer mulheres submissas, mas flexíveis, que aceitem relações sado-masoquistas via contratos. Uma proposta “indecente”; um contrato consensual para dor!
Missão, metas, planejamento e gestão estratégica, palavras de ordem da reengenharia e reestruturação produtiva estão no contrato de submissão elaborado para atingir seus objetivos sexuais! Sr. Grey quer mulheres abertas a novas informações e sua missão e projeto, além da satisfação sexual de ambos, é levar a mulher a descobrir os limites da própria sexualidade através da submissão total ao seu quarto de jogos, ou, nas palavras de Ana Steele, o Quarto vermelho da dor! 


www.google.com.br/images Relação Sr. Grey! Vai encarar?

Dominar, controlar, submeter, prender, espancar,  bater, surrar! Sr. Grey mantem a mulher “no seu quadrado”, tratando suas mulheres e principalmente Ana, possessivamente, como brinquedos sexuais e confundindo cuidar e proteger com dominação, controle e vigilância ciumenta, comprando as mulheres com mercadorias caras e refinadas!
“Você é minha e eu cuido do que é meu”; “eu posso”; “porque eu posso”, “ninguém toca no que é meu”!

Gravatas, máscaras, algemas, varas, chicotes, braçadeiras, açoites, etc, petrificam a relação homem/mulher e reforçam o papel social que sempre foi destinado as mulheres: manter a mulher presa ao homem e para o homem!
www.google.com.br/images VELOCIDADE...O MÁXIMO!

As novas tecnologias alteraram definitivamente a percepção de tempo/espaço e velocidade e rapidez estão representadas em 50 Tons de cinza nos carros, jatos, helicópteros, nos celulares e computadores de última geração, nas ações de Christian Grey nos negócios, no cerco, vigilância e onipresença sufocante na vida de Ana. E ainda, na explosão de sexo contínuo e no “gancho” a cada final de capítulo que prende e leva o leitor a mesma ansiedade e urgência do casal na leitura. Tem-se a impressão de que o livro tem um único capítulo com algumas pausas para gozar, ops,  respirar! Bingo e pontos para E.L. James!
Se entre a substituição dos modos de produção [Fordismo/Taylorismo para Toyotismo/variantes] há uma fase de transição e mesmo retorno e recrudescimento de relações precárias de trabalho (terceirização, escravidão, por exemplo) a mesma fase pode ser percebida no rompimento da relação do casal no livro I; na tentativa de explicação, adaptação/transformação/”cura” do comportamento sexual pervertido do Sr. Grey no livro II e a mescla ou adoção do sexo bruto, sacana, pervertido em variantes “aceitáveis” no livro III.
                                        www.google.com.br/images. Sr. Darcy, personagem de Orgulho e Preconceito de Jane Austen.

Perdidamente apaixonado, Christian está disposto a ficar só no sexo baunilha; o mesmo acontece a Ana, que quer arriscar um jogo ou outro no Quarto vermelho da dor, para ficar com seu príncipe pervertido!
A ousadia e aposta alta de E.L. James está na curiosidade e senso de aventura de Ana: “Isso eu posso fazer”; “Eu posso conviver com isso” sem medo da condenação divina ao inferno de Dante! 
A cartada final, o xeque mate vem com pedido de casamento, anel de noivado Cartier, flores e corações, véu, grinalda, lua de mel na Europa a bordo do Lady Fair e “Eles viveram felizes para sempre” numa hiper mega plus mansão ecologicamente sustentável com cachorro e filhos corroborando o atual momento da acumulação flexível que além de não suplantar totalmente o Fordismo mescla Toyotismo/Fordismo e muitas corrupções, ops, variações no modo de produzir, distribuir e comercializar suas mercadorias!
Se no mundo real é possível esse caráter corrompido da produção por que uma relação tradicional, monogâmica não pode ser apimentada com uma fuga da rotina e experimentações sado-masoquistas?! É a aposta de E.L. James.
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50 Tons de cinza quer ser um conto de fada com UP-grade, a diferença é que, ao contrário dos príncipes que arrebatam princesas em seu cavalo branco e as beijam castamente, totalmente assexuados, Christian Grey, não é filho de rei, não tem diplomas, construiu sua própria fortuna antes dos 30, é um belíssimo serial entrepreneur (aposta em tudo), vem montado num Audi R8, exibindo e esbanjando muita riqueza, “sem flores e corações” e quer princesas submissas para F*@.com.sadismo.masoquismo!