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sexta-feira, 12 de outubro de 2012



REDES ANTISSOCIAIS
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Sérgio Antunes de Freitas

A primeira charge que me fez rir foi uma do Ziraldo, na revista A Cigarra, lá pelos anos 60.
Como se tratava de uma publicação voltada ao público feminino, o cartunista mostrou coerência, desmontando a tradicional figura do homem como ser superior.
A imagem era a de um indivíduo deitado em uma rede de dormir, que acabava de se arrebentar logo abaixo do acordoamento. Com uma das mãos, ele se segurava no que restou das cordas ainda enganchadas.
Com o resto do corpo, se abraçava á maior parte da rede, para não cair.
Jogados no chão, estavam os óculos, copo de refresco com canudinho, livro aberto etc.
Da enorme boca do infeliz, saí uma única palavra em negrito e caixa alta: “MARIAAAAAAAAAA...”
Acho que a rede, cujo nome original é hamaka, acompanha todos os brasileiros desde que os índígenas a inventaram.
Comigo foi assim,
Hoje, posso até dizer que, pela forma como se sai do belo descansadeiro, descobre-se a idade do descansado.
Quando moleque, na hora de sair, eu balançava o corpo ao máximo possível e, quando o bólido atingia sua maior altura, eu me arremessava e caía de pé. Uma aventura! Menos para o gato que costumava dormir ao lado do ponto de pouso. Ele sempre esturrava!
Depois, na adolescência, balançava menos vigorosamente e sonhava com o sucesso na vida, com as paixões inocentes, com um futuro glorioso, quando era interrompido pela obrigação da tarefa escolar.
Mais adiante ainda... Nossa, como é bom um namoro na rede, daqueles em que o casal fica agarradinho, sem saber pra que lado se virar! Os braços chegam a ficar dormentes, só para não sair de perto um do outro.
Nesse ponto, temos que falar da resistência das redes às altas temperaturas, que chegam a 42º entre os corpos.
Mas não existe nada mais sublime do que embalar o filho em uma rede, cantando a música que o faz dormir. É certo que alguns dormem rapidamente, desconfio, para o pai parar de cantar de tão desafinado.
Até que se chega à idade adulta, também chamada de “obesa-idade”.

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Com o peso, sair da rede (a depender de sua altura, largura, profundidade e distância do solo) torna-se uma odisséia dantesca, ou seja, a gente conhece o inferno.
Caí numa armadilha dessas no último fim de semana, quando me afundei em uma dessas que fica na varanda. Ela era muito profunda mesmo e eu estava mais pesado que de costume.
Quando tentei sair, no modo normal, não consegui.
Tentei em diagonal e nada.
Botei as pernas para fora e fiquei de cavalinho, puxando o corpo com os braços. Nem mexi!
A coisa começou a complicar e eu tentei o cavalo invertido: pernas dentro, mas como um jóquei, e os braços fazendo força.
De tanto esforço, acabei em uma posição indefinida. Não chegava a ser uma daquelas do kama-sutra, mas era esquisita. Por sorte, ninguém viu.
Eu não queria me jogar no chão, pelo risco de uma fratura, então, deitei de novo.
-Pôxa – pensei, será que vou ter que ficar de castigo até alguém aparecer aqui na varanda?
A idéia de pintar uma vontade de ir ao banheiro me aterrorizou. Bexiga cheia em uma situação daquelas seria fatal!
Fiz mais algumas tentativas infrutíferas, até que veio a lembrança dos tempos de infância e acabei resolvendo meu problema assim:
 - CLEIDE MARIAAAAAAAAAA...

Sérgio Antunes de Freitas
7 de outubro de 2012