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sexta-feira, 15 de junho de 2012

QUEM PAGA O PATO...

PENICO ERGOMÉTRICO

                                                                                           Sérgio Antunes de Freitas

O Beto, um dos meus amigos especiais, me perguntou se eu estaria ocupado naquele próximo domingo de manhã, pois ele queria me mostrar a grande aquisição de sua vida.
Diante de uma resposta negativa, ele garantiu passar em minha casa logo cedinho, para irmos até a sua chácara.
Arrependido, concordei.
E fomos, mas, primeiramente, passamos em um viveiro de plantas, onde, segundo um conhecido, havia mudas de uvas baratas. As mudas, não as uvas!
Ao saber dos preços, ele comprou cinco mudas de uvas e dez de mangas.
Perguntei se ele pretendia alimentar o povo vietnamita com polpa de manga, pois a família dele não consumiria os frutos de uma única mangueira, quanto mais de dez.
Ele riu e justificou: - Os bichos comem.
Perguntei se havia bichos por lá e ele me disse ter, por enquanto, apenas uma dezena de galinhas, sendo duas d’angola.
Comentei: - Pôxa, praticamente uma granja!
Chegamos ao paraíso dos sonhos do Beto.
Havia uma casa de alvenaria, em forma de caixote, coberta de telhas de cimento amianto, com esquadrias de ferro e vidro, basculantes. Certamente, projeto e construção do dono anterior, que, provavelmente, não ganhará um prêmio internacional de arquitetura por isso.
Mas, ao lado, havia uma churrasqueira daquelas de cinema, feita em tijolos aparentes, envernizados, com geladeira transparente para as cervejas, motor para ficar girando as carnes, quadro para pendurar facas, chaias e espetos, toldos coloridos para a proteção solar e um sistema de som que eu pensei ser um trio elétrico da Bahia.
Mais distante, um barraco de madeira, caindo aos pedaços, apoiado em um cano longo com uma antena de televisão na ponta. Era a casa do caseiro desdentado! Devia passar muita vontade, quando sentia o cheiro da carne assada.
O solo era uma piçarra e não prometia ceder nem com picareta ou britadeira. Ele me disse ser necessário abrir um buraco, de metro por metro, e colocar terra boa, para plantar as mudas. - Praticamente uma operação de guerra - considerei.
Enfim, uma propriedade livre de uma eventual desapropriação oficial ou mesmo de uma invasão dos sem-terra.
Deixando de lado as piadas com meu amigo liberal, perguntei: - Ô, Beto, você não acha essa terra meio árida?
- Sim, mas você vai ver quando isso aqui estiver cheio de bichos! – respondeu.
Que isso? – retruquei. Aqui não dá para criar nem calango com ração balanceada. Você não vai colocar animais inocentes nesse deserto, vai?
Fomos embora, pois não havia mais nada para ver na grande propriedade de quase um hectare. Até o pé de lichia, ele já havia me mostrado com orgulho.
Voltamos para a cidade, conversando sobre as potencialidades das áreas rurais, de acordo com as quimeras do meu amigo.
Semanas depois, ele me obrigou a voltar ao sítio, para ver um casal de patos adquiridos recentemente. E a pata, segundo seu comentário feliz, havia chocado quatro patinhos bonitinhos demais!
Perguntei se ele havia construído um laguinho para as aves e ele sorriu, como se eu fosse muito ingênuo.
O que presenciei foi deprimente!
Ele havia colocado um penico com água, ao lado do galinheiro.
Tudo bem! Era um penico grande, tamanho família, mas o pai, um patão gordo, entrava no recipiente e não cabia mais ninguém. Os filhotes ficavam horas esperando a oportunidade de uma molhadela.
O patão só conseguia movimentar os pés, digo, as patas, como em uma bicicleta ergométrica de academia de ginástica. Não saía do lugar. Era um penico ergométrico!
A cena era muito forte e eu intimei o Beto: - Você vai me levar, agora, naquela venda onde tomamos um café, na vinda para cá.
No pequeno comércio, nem regateei; comprei uma bacia grande para substituir o famoso recipiente, também conhecido, nas mais diversas regiões do país, como bispote, cabungo, calhandro, capitão, comadre, mijadoiro, popó, rastadeira, troninho, urinol. Para o patão, apenas um refrescador de traseiro.
Quando enchemos a bacia de água, os patinhos avançaram sobre ela, como meninos de rua avançam sobre doces doados. Era uma reação normal contra a miséria.
E como a bacia também não era suficiente, eles nadavam em círculo, em fila indiana e rapidamente, pois o patão já se dirigia para lá, com postura ameaçadora de adentrar a piscina.
Parecia um estande de parque de diversões, o que fez o Beto comentar: - Dá vontade de atirar com chumbinhos, né?
Para sorte da natureza, meses depois, o Beto vendeu seu latifúndio, confirmando uma velha asseveração, a de que sítio de recreio é objeto de duas alegrias: uma, quando se compra, outra, quando se vende.

Sérgio Antunes de Freitas