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segunda-feira, 21 de setembro de 2015

BRAZIL: A CORRUPÇÃO DO LEITE

O BATISMO DO LEITE*
Marina da Silva


Não se assuste! Não é assunto de religião e batismo aqui não é o rito religioso de aceitação da fé cristã. O batismo do qual falo é o mesmo que falsificação, adulteração de mercadorias.
O leite sempre foi batizado e muitos acreditavam religiosamente, que somente com água. Batizar um produto é, além de abusar da fé do consumidor, uma fraude para conseguir lucros cada vez maiores.
Assim como o batismo cristão é um ritual histórico instituído por João Batista, o profeta que batizou Jesus nas águas do rio Jordão, o batismo como falsificação, adulteração de produtos pode ser rastreado em tempos remotos, especialmente ligados ao surgimento, ascensão e estabelecimento definitivo do modo de produção capitalista.
O batismo não ocorre somente em tempo de vacas magras, mas principalmente com o aumento da competição e não se prende somente ao leite, mas ao “pão, vinho e a hóstia sagrada”.
Chevalier, químico francês, citado por Marx em O Capital (1998:289), relata processos de adulteração de mercadorias: “Para o açúcar, há l6 métodos de falsificação; para o azeite de oliva, 9; para a manteiga, 10; para o sal, 12; para o leite, 19; para o pão, 20; para aguardente, 23; para a farinha, 24; para o chocolate, 28; para o vinho, 30; para o café, 32 etc. Nem mesmo o bom Deus escapa dos falsificadores”.
O recente batismo do leite descoberto pela polícia federal na Operação Ouro Branco (outubro/2007), em cooperativas do estado de Minas Gerais, maior produtor de leite do Brasil; e que deixou graves suspeitas sobre toda a linha de produção láctea no país, é apenas mais um processo de falsificação entre milhares de outros que sofrem os laticínios. Soda cáustica, água oxigenada são apenas substâncias da fórmula de fazer dinheiro fácil ainda no balde batismal, desrespeitando e abusando da boa fé e principalmente da impotência do consumidor.
Tudo o que é verdadeiro pode e é falsificado: alimentos, bebidas, produtos de limpeza, de beleza, remédios, drogas, roupas, calçados, jóias, CD’s, DVD’s, livros, brinquedos, os selos de inspeção e fiscalização dos órgãos do governo, carteira de motorista, diplomas do prezinho ao doutorado, informação.
Adulteração, falsificação, contrabando, pirataria, saem das fábricas e povoam os lares e as relações humanas numa prostituição inimaginável no século XXI. Pode-se resistir a uma ou outra falseta, mas não a avalanche que tomou conta do mundo atual, onde a produção de mercadorias cada vez mais se vale de ações ilegais, corruptas, fraudulentas, formas precárias e desumanas de trabalho e muito do trabalho escravo de adultos, jovens, crianças de ambos os sexos.
Rascunho este texto com caneta e caderno made in China, uso roupas suspeitas de trabalho escravo em confecções de São Paulo e enquanto digito o computador me alerta que meu software pode ser pirata. Mais grave, no entanto, foi ver na TV o deputado federal mais votado na última eleição, Paulo Maluf, do alto plenário, defender com extremo fervor e santidade o contrabando e a pirataria, visando tornar constitucional a ilegalidade, a imoralidade.
A ênfase dada ao vale tudo na contemporaneidade, a fúria na busca das melhores vantagens comparativas (matérias-primas, mão-de-obra barata, isenção fiscal e outras benesses), a destruição impiedosa da concorrência na luta pelos mercados, mudam não somente o significado e a forma de produção de mercadorias como afetam as relações sociais de trabalho, a vida do trabalhador (caráter, personalidade) e da sociedade em geral invertendo os valores éticos, morais, humanos, etc e tal.

*Publicado no Jornal Estado de Minas. 2007. Caderno Opinião.