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quarta-feira, 2 de outubro de 2013

BRAZIL: FOTO-CONTORCIONISMO...

Michelangelo, Giotto, Caravaggio e o... feliz!
www.google.com.br/images. Monalisa, Leonardo da Vinci.
Sérgio Antunes de Freitas

 Ao sair do mais importante museu da arte renascentista, ouvi um senhor brasileiro de uns setenta anos comentando com fastio: - Ora, isso aqui é para quem gosta de pintura! O que ele queria encontrar ali? Eletrônicos para vender? Moças dançando cancã? Buchada de bode? O Pato Donald? Por que ele não foi para Miami ou Disneylândia, oras? Parece que a maioria das pessoas faz turismo para dizer que fez e, claro, para tirar fotos, muitas fotos, pois os aparelhos eletrônicos atuais permitem capturar imagens a custo baixíssimo  muito menor que a antiga técnica dos filmes reveláveis. Nas visitas de hoje, os turistas não percebem o ambiente nem observam as obras de arte seculares. O objetivo primeiro é fotografar! Se as fotos são proibidas no local, tentam burlar as normas. Deve ser prazeroso para eles! Se não são proibidas, é uma festa, com máquinas fotográficas, tablets, celulares, óculos com câmeras e sei lá mais o quê. Para que saber como o mestre deu aquela pincelada ou cinzelada, que registrou com perfeição os músculos dos antigos heróis? Para que saber quais cores combinou, como conseguiu o contraste, como obteve o efeito da luz e da sombra, transmitindo uma emoção num tempo em que não havia recursos audiovisuais? Segundo o velho, isso é para quem gosta de pintura, de escultura, de arquitetura, de história! Não para ele.  
www.google.com.br/images. Monalisa, Leonardo da Vinci. 

Fotos, fotos, fotos! Você entra no museu e se sente uma estrela no meio de mil “paparazzi”. É click, flash, crish, frock, croch... é gente tirando fotografias do piso, do teto, das paisagens vistas das janelas, de si, dos outros e até das pinturas e esculturas, mesmo sabendo que as imagens das obras artísticas, de primeira qualidade e obtidas por profissionais, estão disponíveis na Internet. Entretanto, para você olhar ou passar de um ponto ao outro, indefectivelmente, tem alguém com o dedo no gatilho. Para que perder tempo, olhando o semblante sofrido e resignado da Pietá e a forma de suas mãos, acariciado o filho morto? Importante é o sujeito voltar para casa com centenas, milhares de fotos nas memórias de seus aparelhos. E quem sofre é o vizinho, convidado para ver todas em uma noite calorenta, com os devidos comentários e justificativas para cada uma. Depois de umas cinco horas, ou seja, quase dois “E o Vento Levou”, que tem duzentos e trinta e oito minutos de duração, a vítima avisa que vai embora e recebe como resposta: - Só mais um pouco, vou passar a segunda parte bem rapidinho! Uma das maiores reclamações dos fotógrafos  digo, turistas, é o calor dentro dos museus, devido, entre outras razões, ao grupamento de gente. Portanto, senhores museólogos, para que manter a temperatura, provavelmente em vinte e três graus, que é a famosa temperatura de laboratório, e outras condições com o objetivo de proteger e tentar perpetuar a integridade das obras valiosas? Vocês tem que pensar em dar o conforto glorificante ao burguês moderno, que quer dezesseis graus de ar condiconado, para passar vinte minutos no local. - Estou pagando – é a justificativa capitalista. Mas, naquela alegria em que o Hanz vai tirar a foto da Elza, o Tanaka da Toshico, o Paul da Jack, o Pancho da Lourdes, o Joaquim da Maria, aparece a figura mais interessante: o feliz! 
www.google.com.br/images.
 O feliz também quer fotos, fotos, fotos, mas, acima de tudo, demonstrar que é pessoa educada e não passa na frente de quem está prestes a fotografar qualquer coisa. Assim, ele para bruscamente sua caminhada, com os braços abertos para não deixar que outros atrapalhem o ato sagrado do próximo, recrimina com o olhar aqueles que desobedecem à convenção, movimenta a cabeça, demonstrando solidariedade a quem julga prejudicado, se abaixa, sai da frente, senta, agacha, deita, rola e, depois, fica comentando suas atitudes polidas e a dos outros ignorantes que só querem ver as peças e as características artísticas do museu, da catedral, do monumento. É uma nova modalidade de turismo, a do foto-contorcionismo!
www.google.com.br/images