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segunda-feira, 29 de abril de 2013

BRAZIL: zona total!


DECISÃO DE CISÃO
 
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Sérgio Antunes de Freitas

Alguém chegou ao bar da estação ferroviária e anunciou com voz vacilante: - O Prefeito vai fechar a zona!
Obviamente, tratava-se da zona do meretrício, conhecida como a Casa da Clotilde.
Auricélio, assíduo freqüentador do estabelecimento, digo, dos estabelecimentos, bar e zona, já se levantava da cadeira para ir embora e, no susto, sentou de novo.
- Gente, não pode um negócio desses. Para onde as meninas vão ganhar a vida?
E continuou seu lamento dolorido: - Aquelas meninas são praticamente minhas irmãs!
O Silveira, comerciante de móveis, mesmo sendo o maior fornecedor de camas para a empresa da Clotilde, desconversou: - Elas vão acabar arranjando emprego de domésticas por aí!
- Ficou louco - gritou a cozinheira dos pastéis. Qual é a madame que vai colocar uma zinha dessas, de curica, dentro da própria casa? Só se for crê-cré!
E o Auricélio, já simpatizante da bancada de oposição, manifestava toda a sua revolta incontida: - Isso não e um prefeito, é uma íngua!
Em todo lugar, a intenção do Prefeito virou assunto principal e as opiniões se dividiam entre os moralistas e os indulgentes, sob a atenção rígida dos garotos adolescentes.
- Engraçado! Agora, os homens da cidade passaram a se preocupar com a vida das mulheres da vida – diziam as carolas.
 
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A origem da decisão do Prefeito teria sido a ordem de sua esposa, que disse não agüentar mais ouvir falar sobre o carro do marido ter sido visto lá pelas bandas da casa das quengas.
(- Mas, Amor, eu ando pela cidade toda, para cumprir as obrigações inerentes ao meu alto cargo e para manter minhas bases políticas.)
Contudo, para acalmar a fera, o homem obedeceu ao mando de lacrar a casa da luzinha vermelha, mesmo sabendo ser obrigado depois, provavelmente, a revogar a medida.
Auricélio estava indomável. Tornou-se uma trincheira contra o ditador maquiavélico. Andava pelos gabinetes dos políticos criticando a atitude tresloucada do homem, com base nos mais elevados princípios de amor ao próximo e citando até trechos bíblicos.
E só fugiu da discussão, quando um professor do colégio afirmou ser imperioso, antes da medida proposta, dar um treinamento ou curso técnico para as garotas poderem buscar outras formas de serviço.
Após muitos conchavos e em sessão secreta da Câmara Municipal, decidiu-se, por motivos humanitários, pela continuidade das atividades da Casa da Dona Clotilde, mas apenas em clima de tolerância.
A decisão foi levada ao Prefeito, que, após louvar a decisão dos ilustres parlamentares, comunicou ter o Pastor, maior defensor do fechamento do “brega”, aceitado assumir uma posição de neutralidade, em troca de uma pequena verba para a futura escola a ser criada pela sua igreja.
E justificava o Pastor: - Trocamos seis por meia-dúzia, pois a educação levada a sério evita um futuro de prostituição.
- Amém – diziam os fiéis.
A primeira dama, arrependida pela dor de cabeça criada para seu companheiro, recuou estrategicamente, pois já sonhava viajar a Miami, com vistas a alguns exercícios de consumo.
Enfim, encerradas as discussões acaloradas pelos muros da cidade, tudo voltou ao normal. E a Clotilde organizou uma festa, com uísque importado, charutos cubanos e meninas perfumadas, na qual compareceram todos os personagens masculinos desta história.
E qual é a moral desta história?
 
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Nenhuma! Aliás, se uma coisa não há nessa história é moral, pois é bem assim que acontece a política em todos os escalões e nos diversos poderes de nossa República.

Sérgio Antunes de Freitas
28 de abril de 2013