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quarta-feira, 27 de março de 2013

BRAZIL: 50 TONS DE...fanfarronice!


FLOR
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Marina da Silva
_ Ô de casa! Zezé?
Trepada na goiabeira ao fundo do quintal, Aline sentiu um arrepio e um mal estar, espécie de mau agouro, quando reconheceu a dona da voz. Era assim que sempre se sentia quando aquela visita chegava irrompendo pela sala, chamando pela dona da casa, sua mãe, conhecida por todos como dona Zezé. Nos fundos do quintal, numa fornalha de barro com trempe de duas bocas, que o pai fizera há poucos dias, Maria Josefina mexia o "sabão de quadro" que estivera preparando desde muito cedo.
Devia ser umas duas horas da tarde. O calor escaldante do verão no cerrado tornava-se insuportável à beira da fornalha. Zezé estava naquele trabalho desde manhãzinha e respondeu o cumprimento da prima, mandando que esta se achegasse. Com um olhar incumbiu Aline de continuar cuidando da mistura e foi até a cozinha receber dona Flor do Salustino, como todos a conheciam.
Maria das Flores era uma mulher encorpada, feia e atarracada, uma macho-fêmea, como escutara várias vezes a família dizer. Fora casada com um salafrário! Era o modo dela se referir ao marido, o senhor Juliano Salustino, moço bonito e desajuizado. Todo mundo conhecia Flor e sua fama de valentona, mulher que encarava qualquer homem e que gostava de se gabar, contando como estourara um bordel buscando o marido na bala e fazendo o maior fuzuê na casa das 'mulheres-de-zona". 
 Salustino era no seu dizer um raparigueiro. Gostava de jogatinas, bebidas e de raparigas. E após a empreitada de Flor na zona, o homem virou um santo! Ela adorava contar a sua façanha. De como arrebentou a porta do "redevú" com o pé e tirou o homem de lá à bala, no tiro. O pobre na correria, esqueceu a roupa e saiu correndo pelado janela afora. Ele e alguns companheiros de farra que estavam na maior folia, safadezas e indecências. O homem não durou muito e Flor ficou viúva eterna, pois não havia homem no lugar que encarasse mulher tão brava, que recebia os pretendentes à bala.
A família toda dizia que na verdade, ela não gostava mesmo de homem, era mulher-macho, feia que nem diabo, de bigode, uma pinta grande e cabeluda na bochecha gorda e muito "arrastadeira" de bagaço. Os homens da família a respeitavam, mas por trás metiam o malho e caçoavam desta mania de valentona e de botar banca com todo mundo.
Aline desceu rápido, deslizando pelos galhos da goiabeira e em três movimentos já estava no chão, em pé frente ao forno e remexendo o sabão conforme as ordens da mãe. Lá ia pelos seus doze, treze anos. Magrela, feinha, a cara repleta de espinhas, nariz chato, cabelo pixaim, mais fina que a colher de pau com que mexia o sabão.
Não gostava de Flor. Nem ela nem sua irmã mais velha, Morgana. Esta sempre que as via, as chamava sorridente e debochada, de meninas feias. Não que isso importasse ou que não fosse verdade, mas encabulava e dava uma raiva, um ódio terrível daquela macho-fêmea, que para capeta só faltava o rabo! A irmã mais velha ignorava totalmente a outra, mas Aline, apesar de não gostar de ser chamada de feia, pelo menos uma vez por semana, quando das visitas, gostava muito das histórias de valentia de Flor. A mãe e ela tinham boa amizade, o pai fingia de morto quando a visita estava em casa e como ela não tinha nem dia nem hora para aparecer, o que sobrava mesmo era assombrar quando ela dava as caras. Chegava pisando forte e já ia adentrando a casa como é de costume no interior. As portas estão sempre abertas, não há muro e nem cercas e estas quando existem são baixas e muitas vezes sem portão como na casa de dona Zezé.
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Flor tinha porte além da fama de valente. Vizinho não se metia com ela, nem na roça nem aqui na cidade. Trazia notícia de tudo, de todos e de quantos ela havia peitado naquela semana: padres, professores, açougueiros, médico, amolador de facas, dono da vendinha, a rapariga da filha de fulano, os lesados dos filhos de sicrano e por aí afora!
O café vinha e era tomado ali mesmo no quintal, enquanto a mãe de quando em vez passava o olho no sabão para ver se estava no ponto de tirar do fogo e colocar para endurecer nas fôrmas.
Uma, duas, três horas de conversa. Enquanto a mãe dava os últimos tratos no sabão e punha água na lata de vinte litros para aproveitar as brasas e dar banho nos filhos pequenos, Flor conversava sem parar, pulando de um causo a outro até chegar no defunto falecido. Trepada em cima da pedra de lavar roupas, fingindo não prestar atenção, Aline tirava água do tambor e lavava o enorme caldeirão em que fora feito o sabão e se deleitava com a conversa.
_ Eu acabei com a festa dele logo no início do casamento! E lá vinha a estória do estouro no “redevú”. Flor estava casada de pouco, com um primo. Casamento encomendado desde quando eles eram pequenos. Ela nunca havia se interessado pelo assunto, mas não deixou de cumprir o que os pais haviam ajustado quando eles ainda eram crianças. O casamento foi como qualquer um, com muita festança. Matou-se uns capados, um novilho e tinha muitos doces, biscoitos, bolo, pinga feita na roça, cantoria de viola e sanfona. Foram três dias de festas e o noivo mostrava-se muito feliz.
Logo nos primeiros meses de casamento, o tal Salustino começou a botar as manguinhas de fora. Sumia ao entardecer e só voltava altas horas da madrugada. Flor só o espreitava.  Ela dizia que ficou dando corda para o falecido que vendo que a mulher não se importava, foi sumindo com maior freqüência sequer suspeitando de armadilha!

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Certa noite, aprumou cedo, cheiroso, arrumado e se bandeou lá para os lados da casa das quengas. Flor já estivera no seu encalço e só estava aguardando o momento exato para dar o bote, um  "nhac" nele! E aconteceu! Sem desconfiar das intenções da esposa, Salustino se encaminhou para uma noitada no bordel. Esta era a parte que Aline mais gostava de ouvir. Flor arreou o cavalo, botou a garrucha na cintura e foi baixar, lá pelas tantas da madrugada, no redevú. Desceu do cavalo atirando e botando a porta da choupana abaixo, no pé. Lá dentro, na maior algazarra, sem-vergonhices e indecências, estava Salustino e outros homens, atracados nas mulheres. Foi um fuzuê só, de homens correndo e pulando pelados pelas janelas e portas dos fundos! Eram inevitáveis as gargalhadas! Senhor Salustino entrou nos eixos, mas não durou muito, teve morte besta caindo de um cavalo. Flor teve uma filha com ele, mas nunca mais quis saber de homens. Só se fosse para peitar e bater! A danada era tão brava que a última que aprontou foi cuspir na cara de um delegado e ainda chamar o cabra de crioulo, meganha, macaco, pau-mandado e tudo porque foi flagrada dirigindo sem carteira e ainda por cima a danada usava como combustível um bujão de gás de cozinha, numa gambiarra maluca e perigosa numa BR movimentadíssima! Moral da história: Flor foi presa por desacato à autoridade e ficou uns bons dias no xilindró berrando e xingando tudo quanto é nome feio, pois boca suja estava ali.
O delegado não refrescou nem facilitou nada! Nem pela idade avançada, nem por ser mulher! E a parentela toda aproveitou para ir a forra e tirar um sarro com a cara da valentona que se não saiu enquadrada, pelo menos murchou mais o papo e teve que enfiar o rabo entre as pernas!