Postagens populares

Pesquisar este blog

Carregando...

sábado, 17 de março de 2012

QUEM NÃO LEVOU UM SUSTO COM A TAMPA DO VASO SANITÁRIO...


TAMPA ASSASSINA
www.google.com.br/images

 Sérgio Antunes de Freitas


Eu não me lembro se, naquele tempo, existiam essas tampas de privada com assentos acolchoados, fofos, macios.
Tenho um amigo machão que diz não gostar delas, pois se sente sensualmente encoxado.
Mas, como dizia, o assento da tampa do vaso sanitário na casa da minha tia não era confortável. Feito de um plástico duro, rachou pelo excesso de uso. A casa era muito frequentada pelos irmãos dessa tia, além de sobrinhos e amigos.
Quando uma pessoa sentava-se no vaso, a rachadura se abria. Quando a pessoa se levantava, ela se fechava e beliscava a parte inferior da coxa esquerda da vítima.
Eu e meu primo, ao saber que alguém iria usar o retrete, corríamos para perto da porta, para ouvir o gemido. A gente escutava a pessoa tentando se levantar e, logo a seguir, um ai, baixinho, contido, aspirado. Um onomatopéico ai-aissshhhhhhh.
A diversão era certa. Principalmente, com a cara do sujeito, ao sair do banheiro, e os comentários dos mais íntimos:
Até hoje, não trocaram a tampa do vaso? Querem matar a gente?
Outros, mais tímidos, apenas saiam sorrindo, tentando fingir que não havia acontecido nada. Mas coçando a coxa.
Havia também os consolados:
Putz! Essa doeu! Saiu até água dos olhos!
Outros, ainda, eram mais expressivos, considerando que estávamos no período de um governo militar:
Ô, privadinha truculenta!
www.google.com.br/images



A depender do fator surpresa, da gordura acumulada e da posição da perna, a mordida era mesmo horripilante.
Porém o tempo foi passando. Nem minha tia comprava outra tampa, nem as pessoas eram mais surpreendidas pelamordedura pós-relax, como a nomeava o meu primo. Sentavam-se de lado, avisavam uns aos outros Ó, cuidado com a tampa, heim! - ou mantinham o assento pressionado com a mão e levantavam a pernoca, como em um movimento de ginástica olímpica.
E a novidade passou.
Certo dia, de manhã, ficamos sabendo que havia morrido a esposa de um outro primo distante. Já velhinhos, sabíamos que o sobrevivente iria sofrer muito com a viuvez, já que viveram juntos, praticamente, a vida toda. Casaram-se ainda jovens e não se largaram por décadas. Todos os compromissos sociais eram feitos a dois, as festas, as missas e até os mais simples passeios pelo jardim.
Minha tia, após o enterro, no final da tarde, convidou o primo e mais alguns acompanhantes para tomar um café em sua casa.
Eu cheguei nessa hora e, meio constrangido, perguntei ao velho primo como ele estava. Com voz embargada, ele respondeu:
Nada bem. Hoje, além de enterrar minha companheira, acabei de levar uma mordida na bunda.