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quarta-feira, 31 de agosto de 2011

                          CACHORRO ANÔNIMO
 
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sérgio Antunes de Freitas

Cada famíliar chamava o cachorro por um apelido.
Como a família era muito grande, o cachorro passou a atender por qualquer nome.
Chamavam o gato, vinha o cachorro.
Alguém prendia o dedo na gaveta, dizia um palavrão, olha o cachorro abanando o rabo, feito um ventilador.
Jogo do time do coração, último minuto, se o torcedor gritasse goooooool, chegava o cachorro salivando. E era abraçado, como se fosse o centro-avante salvador!
A mãe chamava um filho, aparecia o filho e o cachorro.
A situação começou a incomodar tanto que resolveram fazer uma reunião familiar, para contratar que o animal deveria ser chamado por uma palavra padrão.
Nessa votação, foram ditas todas as palavras que lhe eram familiares e outras semelhantes. Nunca o cachorro se divertiu tanto, correndo em volta da mesa. Aí, vieram os estímulos opostos, mas estímulos.
- Sai, Feijão!
- Fora, Camarão!
- Chega, Nicodemus!
- Passa, Eleitor! – dizia o cunhado derrotado nas eleições para vereador.
E o cão pulava mais.
Decidiram-se por uma única alcunha, mas não adiantou nada. O papagaio da casa vizinha já havia decorado todos os outros nomes e manteve o condicionamento canino.
Haviam aceitado a derrota, até que o bicho começou a mudar o seu comportamento e deixou de atender a todos, chamasse por qualquer nome que fosse. Parecia que ele havia se cansado daquele paparico sem fim.

Concluíram os familiares que, por alguma razão, o animal se tornara zen.
Vivia absorto, olhando para o quintal do vizinho, em estado de contemplação.
Parecia que, na maior parte do tempo, meditava, atento ao mantra sagrado: fi-lé, fi-lé, fi-lé, bis-teca.
Se não estivesse em sua dársana, estava lá mesmo, dormindo embaixo da ameixeira, seu belvedere, seu Tibet.
Saía de lá somente por voluntariedade, para as suas necessidades ou para buscar um carinho calmo e espiritualmente profundo. Às vezes, acordava sobressaltado, talvez sonhando com seu passado mundano, mas logo se dava conta de sua condição cosmológica e voltava ao estado normal, em harmonia com o universo. Seu olhar era tranqüilo, transbordando a sabedoria de quem vive seu mundo em paz.
Isso contagiou a família toda, que passou a se preocupar com as razões místicas da vida, ao invés de bens materiais ou preocupações excessivas com a corporeidade. Cada um partiu para um lado, buscando a sublimidade, a elevação, nos mais diversos livros, hinos e cultos religiosos, ocidentais e orientais.
Todos já haviam aceitado e aprovado aquela convivência em plano superior, tanto que se juntavam e ficavam observando o cão, em silêncio. Quando ele fechava os olhos, chegando ao seu nirvana, todos fechavam e o acompanhavam com pensamentos puros. Isso os permitia relaxar das tensões da vida, descansar do cotidiano, purificar a alma.
                        

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Um dia, sentados na varanda, meditando junto com o mestre simbólico, os irmãos viram um garoto apontar para o guru de rabo e dizer:
- Mãe! Olha lá aquele cachorrinho surdo que eu falei.


Sérgio