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quinta-feira, 21 de julho de 2011

ENQUANTO HOUVER POESIA...

DE UM HOMEM PARA UMA ORQUÍDEA



Sérgio Antunes de Freitas
Se fossem mulheres, as rosas teriam inveja das orquídeas.
Talvez as chamassem de santinhas-do-pau-oco, falsas, dissimuladas, fingidas.
As orquídeas também teriam inveja das rosas e as chamariam de metidas, amostradas, presunçosas. Ou patricinhas, como dizem as atuais adolescentes menos vaidosas.
Coisa impossível na vida é harmonizar concorrentes tão uterinas!
As rosas são realmente mais desinibidas; parecem espanholas vestidas de vermelho, dançando ritmos rasqueados, com suas castanholas mágicas. Nem por isso são fáceis!
As orquídeas são resguardadas, aparentemente mais difíceis. Nem por isso são intangíveis. Parecem gregas, com roupas brancas, em danças comedidas, compassadas, olímpicas.
O homem observador de uma orquídea sem flor – se não conhece da matéria – despreza aquela folha verde, comum, desinteressante.
O homem da idade do lobo, que sabe ser a flor da orquídea complicada, age, então, com a paciência de um pesquisador de preciosidades. Busca o segredo da vida, tal qual um mateiro solitário, auscultando aquilo que poucos percebem.
Vandas, Áureas, Constâncias, Lélias são orquídeas que se mimetizam nas matas, nas mentes, nos corações e, dificilmente, se entregam a aventureiros.
Precisam de muita atenção para ser levadas a uma casa diferente da sua.
Mas vamos evitar a tentação de se comparar flor e mulher.
Fiquemos, apenas, com os olhos na orquídea.
Todo dia, devemos dedicar-lhe um mínimo de atenção. Desconfiada, pouco retorna. É lenta intencionalmente. Sua velocidade é diferente.
Mas, se somos persistentes e nos devotamos em cuidados a ela e a seus acessórios - xaxim, vaso e arames, aos poucos, elas ficam mais à vontade. De repente, parece que o verde de sua folha fica mais vivo, liso, sem manchas. Tudo indica, ela se sente segura, confiante, descontraída, em casa mesmo.
Matreira, não se entrega! Parece querer desafio, querer jogar com a gente.
Folgada, começa a impor o seu capricho.
Devemos, então, continuar devotando o mesmo carinho ao seu mundo, até quando, em uma madrugada calorenta, percebermos que suas folhas estão mais suculentas.
Alguns dias depois, ela mostra uma parte extremamente carnosa, com uma sugestão de abertura diferente das folhas.
Pouco a pouco, vai se abrindo pouco mais, até mostrar partes curvas, virgas, como lábios prontos para os beijos.
Em outra madrugada de calor, essas partes arqueadas e suaves mostram-se orvalhadas, ensejando a vontade de serem tocadas por dedos amáveis e precisos.
Chega o momento maior: totalmente aberta, mostrando recônditos, apresenta seu formato escultural.
Suas entranhas ficam expostas e os despreparados pensam que o momento é eterno ou, pelo menos, comum.
É apenas uma chance que elas dão aos aventureiros!
É a chance única de conhecer o segredo mais celestial que pode existir - o ponto de equilíbrio entre cores, formas e volumes, perfeitamente compensados.
O local onde se encontra torna-se um templo, augusto e silencioso. Não se ouve nem mesmo passos perdidos lá fora.
Nesse tempo, o homem sábio também sente a vontade involuntária de se transformar, de abrir as asas, de controlar a velocidade, o ímpeto, por um lado, a inércia, por outro, como um pequeno, mas vigoroso beija-flor.