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sábado, 23 de abril de 2011


A PROFESSORA ALOPRADA
Marina da Silva

Era a primeira vez...
Uma turma inteirinha só para ela numa das muitas regiões pobres da grande cidade.
A alegria excessiva da Eventual, uma professora substituta, fê-la suspeitar de um batismo: aquele ritual para novatos e calouros quando entram nestas irmandades da vida. Numa mesma turma, todos os alunos que ninguém queria. Informaram-lhe um tanto debochados. A moça foi para casa convicta de que aquele seria um começo penoso, mas um bom desafio. Afinal, qual era a graça em dar aulas para os melhores alunos? Qualquer professora ruim se sobressairia. O seu negócio era fazer reluzir o ouro escondido em meio aos cascalhos de um rio.
Na sexta voltou armada. As aulas começariam segunda. Espalhou cartazes de boas vindas, fez um céu estrelado com o nome das crianças gravitando ao redor de uma lua. Volta e meia alguém chegava desconfiado à porta da sala.
_ É para receber as crianças na segunda!
E elas vieram! Mais de trinta, terceira série e algumas séries repetidas. Tomou os primeiros pelas mãos, conduziou-os escada acima e observava contente as carinhas espantadas com a sala arrumada e a nova tia. Quase dois meses foram necessários para se fazer ouvida. Bom dia, por favor, obrigada, dá licença, posso tia?
_ Antes das férias teremos uma festa para comemorar os aniversários de janeiro a junho.
E lá vem ela, desengonçada, num tabuleiro tamanho família, equilibrando um bolo azul.
_ É festa? Perguntou o motorista.
_ Para os aniversariantes da minha turma.
A partir de então não mais precisou sonhar com Pasárgada e nem ser amiga de rei. Todos os motoristas a esperavam, quando, às vezes atrasada, vinha correndo esbaforida em meio aos carros cortando as ruas.
Uma sombra na janela tira a atenção da turma. É o menino que não usa o portão de entrada, vem de casa para a escola pulando o muro.
_ Providências devem ser tomadas... e enérgicas!
Um sabão, uma lavada e prisão depois da escola. Ficaram os dois de castigo e ela que tinha horror à ditadura...
A tarefa para meia hora foi cumprida em dois minutos.
_ Eu lhe avisei! É meia hora de castigo.  Coincidentemente o intervalo do ônibus para a próxima partida.
_ Cê é aloprada tia?! Eu tenho que esquentar a comida, acordar meu pai e sair para trabalhar até o meio-dia!
_ Como é? Perguntou a louca assustada.
E descobriu que o menino era acordado às cinco e meia quando a mãe saia para o trabalho e tinha obrigação de ficar desperto até quando o sino da escola batia. Mas o danado adormecia e acordado pelo pai, vigia noturno, saía apavorado e pulava o muro porque aquelas alturas o portão da escola fechado estaria.
_ Vamos embora! No alto do morro, um afago na cabeça e um envergonhado me desculpe.
_ Brema não fessora! E desculpa aí o aloprada... Cê num é doida não tia!