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terça-feira, 29 de dezembro de 2015

BRAZIL: TRABALHO SEM NEXO CAUSAL

DÉCIMO TERCEIRO ANDAR
Foto Marina da Silva. Avenida Paulista, São Paulo,SP. Brazil.

Marina da Silva
Seis horas. Leléu chegou ao trabalho. Olhou o porteiro de soslaio, chamou o elevador para ir ao décimo terceiro andar. Vinte e seis anos, mesmo ritual, agora penoso, irritava-o.
Fingiu ler algo. Quando a porta abriu esgueirou-se no fundo, pálido, estranho, a pasta colada ao corpo; apertou nervoso o botão para fechar rápido. Sentiu que não mais respirava, o coração não batia, apenas doía-lhe muito.
Dezessete anos atrás era a vida de Leléu outra. Entrara porteiro na Justiça, carteira assinada, dedicação total. Conseguiu tornar-se funcionário concursado. Trabalhava numa vara com processos, conversando com juízes e advogados e colegas de serviço de formação superior.
Nos tempos de porteiro Leléu andava empertigado, terno verde-musgo, rádio na mão para as patrulhas, sempre cordial, solícito. Tinha vinte e cinco anos, trabalhava e fazia Direito à noite. Morava com a mãe, dois cães numa kitnet alugada no centro da cidade. Nos anos noventa, Leléu virou assistente judiciário e empossado numa vara aprendeu o trabalho, sentindo prazer em tudo e sempre citado como modelo!  Pontual, assíduo, dedicado, atendia com presteza, oferecia ajuda e tinha paciência com novatos, algo raro no serviço público.  Neste tempo ganhou uma gratificação superior ao próprio salário e economizando disciplinadamente, comprou uma casa e financiou outro imóvel pensando num futuro casado, pai de família.
Nesse período a saúde da mãe passou a lhe dar cuidados. Bem instalada, ela ia a médicos sem necessidade, inventando doenças nunca comprovadas. Tornou-se autoritária, ciumenta, exigente.  Leléu abriu mão de tudo; vivia aprisionado entre a mãe e o trabalho que se transformava radicalmente. Informatização e reformas do governo, todas prejudiciais aos trabalhadores e despotismo de chefias com o discurso “flexibilidade”, trabalho de equipe, enrijeceram as relações e condições de trabalho. Missão, metas, gestão estratégica, qualidade total, gestão de competências e de pessoas (mas perpetuando o nepotismo); chavões apropriados da administração empresarial  e aplicado na Instituição criada para dirimir conflitos do trabalho. Isso gerou instabilidade, surto de aposentadorias, desfalcando o “Team” nas varas.  Leléu penou com sobrecarga de trabalho, metas absurdas e redução do salário. Muitos como ele perderam a gratificação, ficaram endividados, adoeceram, principalmente por alcoolismo, depressão, problemas osteomusculares.
A pressão por resultados e a imposição de metas virou ordem do dia em pilhas de processos acumulados e mutirões. Muitos sentiram a compressão, poucos ousaram expressá-la, milhares se entristeceram, um grande número adoeceu e Leléu, medalhista, funcionário-padrão, esmoreceu. Morria sofrendo em silêncio e agonia a renda rebaixada, a gratificação usada para exploração e assédio moral.
O silêncio de Leléu juntou-se ao silêncio geral, morreram os sorrisos, o bom dia e gestos educados. Uma peste contaminava, envenenava e emudecia em prol das metas para as vistas do Conselho Nacional de Justiça. Bate papo e cafezinho condensaram-se em uns três “hum, hã, ah”; somente o cigarro e o banheiro não podiam ser controlados.
Leléu não percebeu quando a bebida de hábito virou vício. Apenas sentiu que precisava beber todos os dias e bebia no escuro de uma cantina italiana fumando o pensamento embotado. Aos quarenta e dois anos sentia-se acabado. Não comia, não dormia direito. Passava noites a fio trabalhando, fumando, bebendo, terrificado com metas. Nunca mais recebeu elogio, placa, presente de servidor-padrão; agora era um reles colaborador. Passou a andar desleixado. Doíam-lhe os dentes, os maxilares, as gengivas sangravam um hálito podre.   A empregada notou-lhe costumes esquisitos: muitos celulares, a mania de escrever e ler cartas escondido.
Um dia sem porque Leléu entrou no banheiro e ligou para o celular que deixava na mesa ao lado do retrato da mãe. “Seo Leogildo! Leléu atravessou a sala e foi atender num canto atrás dos arquivos. Ninguém prestou atenção a esse ato até virar rotina. Mas várias vezes o surpreenderam excitado, olhos vidrados, lábios umedecidos. “Deve ser mulher!”As conversas breves deixavam Leléu transfigurado, a produtividade alta. A montanha de processos despencava, sendo devastada na inútil ilusão de ver um trabalho infindável terminado.
As quartas Leléu despachava uma carta. Aos sábados esperava ansioso a resposta. Apossava descontrolado das correspondências trancando-se no quarto, sentido as carnes trêmulas. Três anos e ninguém ousava perturbá-lo. Pegava sôfrego a carta, abria-a, os olhos brilhantes, bêbados, sorrindo estranho, apertava-a no peito e depois lia emocionado.
Na segunda-feira foi trabalhar arrumado, barbeado, usando suas melhores roupas. Parecia decidido, encontro marcado. Tirou a carta, aproximou-se da janela e...
 Leléu
 Gostaria de encontrar-te feliz, enamorado. Mas sei que é em vão. A vida que tu levas é pouco humana. Aliás, não é vida e nada humana! Este silêncio que te cala o peito e anuvia teu ser é um fardo pesado. Precisas arranjar uma saída e escapar! Viver é correr o risco da vida! Quanta vida tu desperdiças na cachaça quando podias abocanhá-la nas boas coisas da vida! Lembras-te do teatro, viagens ao exterior, dos vinhos e livros? Lembras-te que um dia sonhastes ser pai? Como se chamava aquela que seria tua esposa? Júlia, Luana, Marina?
Ah! Quanta energia preciosa e vida consomes nesta papelada inútil, aborrecida, sem fim. Acorde! Não deixes tua vida te escapar! Reaja, grite, quebre tua mesa, ateie fogo nestes processos inúteis que empobrece-te o espírito, faz teus dias infelizes! Onde tu ficastes? Para onde foi teu orgulho de servidor público? Quando foi que envenenaram e transformaram de agradável e gratificante em um inferno dantesco o teu trabalho? Tudo mudou amigo, é hora de mudares também! Você já é a “barata” Kafka! Fujas! Ah se eu fosse tu! Ah se tu fosses igual a mim! Colocavas um fim em tudo com um tiro ou atiravas-te daí agora num vôo tranqüilo!

Marina da Silva