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domingo, 5 de fevereiro de 2012

ORGULHO DE SER PAI...


HOMEM NÃO CHORA!

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Sérgio Antunes de Freitas

No começo deste ano de 2004, li um artigo do Senador Cristovam Buarque que propunha a criação de um feriado ou coisa semelhante: tornar o primeiro dia letivo do ano uma data especial.
Nessa data, no começo do ano comum, todas as atenções seriam voltadas para o início do ano escolar, para demonstrar ao resto da tribo que se iniciaria um período importante, o mais importante de todos.
Fiquei imaginando pais levando os filhos para a escola, música, dança, fantasia, abraços, esperança, um carnaval menos profano, mas não menos alegre.
Tantos feriados e dias santos em nosso calendário que, para não complicar o calendário econômico, bem poderíamos diminuir algum feriado santo e criar esse outro.
Se o santo for santo mesmo, cede o espaço com prazer.
E meu pensamento boiava nessa idéia, quando outra informação me assustou: dentro de algumas semanas, eu buscarei minha filha na escola pela última vez. A próxima etapa é a faculdade, não menos importante, e eu devo buscá-la também, mas essa que se encerra é fundamental.
Comecei a ver o filme da vida de trás pra frente.
Na primeira cena, seu namoradinho me chamando de “Tio”. Garoto agradável e inesperado! Tão simpático e educado que meus ciúmes nem pensaram em estrangulá-lo.
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Retornando mais para o passado, rememorei minhas perguntas pelos boletins, meus questionamentos pelos resultados negativos, meus elogios pelas boas notas; também meu silêncio pelos seus atos falhos que revelavam inocência, a evolução da vida, as falhas humanas.
Em todo o tempo, a identificação com a minha própria experiência.
Até que cheguei aos primeiros dias, em que a mãe me entregava uma criança cheirosa, de uniforme de creche, com uma lancheira pendurada no ombro e os olhos de amor para mim.
Só me cabia transportar aquela generosidade dos céus até a escola e, depois de uma música divina, vê-la entrar por uma porta, olhando para trás, para mim. E eu na dúvida se merecia o momento, a emoção.
Mais tarde, eu voltava a pegar em sua mão, para retornar à nossa casa, ouvindo suas estórias, suas músicas, suas angústias inocentes.
Desculpem-me a falta de modéstia, mas nunca faltei a essa obrigação. Só nos dias em que estava por conta de viagens profissionais. Ou doente.
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Por isso, quero, mas não sei como, comemorar esse derradeiro dia.
Ela estranharia se eu chegasse com uma flor para lhe entregar. Pensei em uma flor do cerrado. Isso por que o cerrado é como a educação: causa certo receio nas pessoas que não o conhecem, sugerindo um ambiente de dificuldades. Entretanto, na medida em que se avança por ele, aprende-se um universo de vida e de arte, imagem resumida na caliandra, a flor que eu levaria.
www.google.com.br/images Caliandra rosa
Ela estranharia mais ainda, se eu pedisse um simples beijo, um beijo fora de hora, o justo e medido prêmio pela dedicação paterna ao longo de dezessete anos.
Certamente, em muitas manhãs, enquanto eu a levava à escola, contando estórias, para enriquecer as informações de sua vida, muitos outros pais dormiam a ressaca de noites boêmias, deliciosas e invejáveis.
Mas eu acho que fui muito mais homem que eles.
Só não serei homem neste dia, quando eu for buscá-la pela última vez.