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sábado, 1 de outubro de 2011

PAPAI, MÃMAE E AVESTRUZ



Sérgio Antunes de Freitas

Eu não sei se vou encontrar “papai, mamãe e avestruz, mas, se encontrar, não vou ficar surpreso!
Estou me referindo a essa moda de colocar um decalque na traseira do automóvel, identificando as características da família proprietária do sonho de consumo realizado. Esse mesmo, que está levando as cidades ao colapso.
O convencional da arte é um homem, uma mulher e dois ou três filhos. Alguns colocam os animais de estimação da família: peixes ou tartarugas em aquário, passarinhos em gaiolas, cachorros na coleira.
Eu não consigo entender como as pessoas gostam de encarcerar os animais mais inocentes, retirando suas liberdades, furtando suas naturezas, ceifando a integridade de suas vidas.
E ainda dizem fazer isso por que adoram os bichinhos. Adoram? Isso, para mim, é odiar.
Engraçado é que, raramente, eles dão preferência à fauna brasileira. Sempre são animais exóticos: cães, gatos, bois, cavalos. E, depois, dizem que são ecológicos!
Bem que poderiam criar ariranhas, antas, tatus, catetos, nhambus, tamanduás. Pelo menos, seriam mais nacionalistas.
Pensando bem, melhor não dar a idéia!
Voltando à “decalquemania”, eu já vi uns grupos familiares interessantes, como: hominho, mulherzinha e uma coisa gorda que não deu para identificar. Deve ser a sogra que mora junto!
Triste, eu fiquei, quando notei um menininho e uma meninha sozinhos. Coitadinhos! Devem ser órfãos.
Na linha do combate à homofobia, vi hominho, hominho e filhinho. E também mulherzinha, mulherzinha e filhinho. Nos dias de hoje, tudo normal. Anormal, hoje, por enquanto, é ver hominho, computador e a prole.
Vi também o conjunto hominho, mulherzinha e jegue. Mas um jegue com cara de muito abelhudo. Só pode ser o cunhado!
Outro, muito interessante, foi o de um provável criador de gado, talvez recém casado, pois, na rabeira de uma caminhonete, dessas parecidas com um rabecão, havia o desenho da cabeça de um boi muito chifrudo, de sua raça preferida (nelore, guzerá, gir, sei lá!), e, logo depois, um casal sem filhos. A leitura, ao contrário, poderia ser: hominho, mulherzinha e ricardão!
Os excessos também chamam a atenção. Uma família, além de uns quatro cães, mostrava três pares de gêmeos, assim: papai, os quatro cachorros, menininho e menininho iguais, menininha e menininha iguais, menininho e menininho iguais de novo, mamãe com um neném de colo.
Pombas! Vende o corcel II e faz uma laqueadura ou uma vasectomia!
Um também aguçou a minha curiosidade, pois apresentava hominho, mulherzinha, baleia, chave de fenda, grampeador, escudo de um time de futebol desconhecido, bailarina, chapéu... a fila quase dava a volta no carro todo.
Acho que matei a charada, quando vi o motorista. Era um velhinho simpático, com cara de feliz. Por certo, fez o gosto do neto, que, por sua vez, havia feito ele comprar todos os tipos de decalques vendidos na loja. Curti demais essa minha dedução.
Alguns acham que essa moda é perigosa, diante da violência urbana, pois, segundo eles, o ladrão fica informado das características da família.
Há dias, um amigo, advogado criminal, defendeu essa tese, no boteco, com todo aquele palavrório jurídico, como se estivesse no tribunal.
Foi aí que eu disse a ele: - Pois é! O gatuno vê você chegando, de carro importado, zero quilômetro, com um relógio caríssimo no pulso, uma pulseira de ouro 18 quilates, terno de marca, sapato de cromo, pasta de couro com segredo na fechadura, entrando em um edifício com as indefectíveis fachadas de vidro, anti-ecológicas e inadequadas para o nosso clima, mas que demonstram soberba, onde, na porta do seu escritório, há uma placa com seu nome e outras características pessoais, mas pensa assim: “eu não vou assaltar o doutor, por que não sei se ele tem um cachorrinho ou gatinho. É mais garantido, para mim, ir atrás daquele pessoal do chevette, pois sei que tem papai, mamãe, cinco menininhos, oito menininhas, sete vira-latas e uma maritaca”.

Sérgio Antunes de Freitas
25 de setembro de 2011