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quinta-feira, 8 de setembro de 2011



ENTERRO SUSTENTÁVEL

Sérgio Antunes de Freitas


FARSA SUSTENTÁVEL: Folder doado por Dr. Cassini, obrigada Rodrigo!

 
Na mente do brasileiro moderno, uma preocupação é cada vez maior: o crescimento populacional no Brasil e no mundo.
Desde que tomei conhecimento da teoria de Thomas Malthus, minha tranqüilidade nunca mais foi a mesma.
Quando a densidade populacional excede um alto nível, ainda não determinado rigorosamente, surgem as patologias sociais, que podem ter abrangência local ou internacional. Pode ser a briga por uma vaga para estacionar o veículo ou a disputa por uma rede de poços de petróleo no Iraque.
Agora, essa preocupação tomou uma dimensão ecológica mais clara.
Cinco bilhões de habitantes, algo em torno disso no planeta Terra, morrerão mais cedo ou mais tarde.
No caso dos países que costumam enterrar seus mortos, além do espaço físico, haverá a necessidade de caixões, que são feitos de madeira, ou seja, os óbitos levarão milhões de árvores ao sacrifício.
Mesmo defuntado, o bicho-homem continua a destruir a natureza!
Medidas urgentes precisam ser tomadas, pois, a qualquer momento, o destino dos falecidos poderá ser um problema sério, principalmente para os países com economia fraca.
(Na Índia, onde é costume cremar os defuntos, também poderão ocorrer óbices:
- Amigo, minha sogra morreu e preciso queimar a bichinha.
- Há! Vai ter que esperar a caixa de fósforos da semana que vem!)
Pensei, então, em racionalizar os recursos fúnebres. Os enterros poderão ser coletivos, grupais, comunitários, usando-se, por exemplo, uma urna para vários cadáveres.
Claro, toda novidade causa reações, principalmente nos machões: - O quê? Eu ser enterrado junto do Teodoro, só se for de valete de copas.
No Brasil, continuará existindo o jeitinho:
- Coveiro, pega vinte pilas aqui no bolso do meu paletó e me enterra com a aquela loiraça que acabou de chegar ao necrotério.
- Vai dar não, Doutor! Ela já está encomendada para um empresário que está no IML. O Senhor vai ter que ir com o estuprador baleado mesmo.
Os problemas da sensibilidade também continuarão, mesmo com os precavidos, que compram suas tumbas antes do momento final, especialmente em relação às esposas: - O quê? Você comprou caixão para três? Quem é a zinha, cachorro?
A economia dos recursos naturais poderá ocorrer, desejavelmente, até nos mínimos detalhes. Poderia ser baixada uma lei: apenas uma vela para cada corpo. Cinco, no máximo, para o grupo.
Os enterrados em trinca poderiam, elegantemente, segurar uma vela só.
(Diria o papa-defuntos: - Não consegui fazer aquele ali segurar a única vela.
- Oduvaldo, larga de preconceito, segura logo essa coisa, pombas!
-Tá louco. Nem vivo!
Também haveria economia dos espaços nos jornais cujo papel igualmente vem de árvores. Assim, o necrológio seria grupal.
Convidamos a todos para as pompas fúnebres do time de bocha do Lar dos Velhinhos. Aos presentes, após a cerimônia, haverá o sorteio das bolas.
Algumas famílias, vítimas em acidente de trânsito, poderão ser enterradas em uma espécie de barril, abraçados, de pé, igual porta-lapiseira. Assim, poderão analisar, por bom tempo, a importância da direção defensiva.
Nos países orientais, inventarão uma forma de compactar os enterráveis. Juntarão sete ou oito, em um caixão reforçado que cabe quatro, e os prensarão para ganhar espaço.
Os mortos poderão ter alguns desconfortos.
(- Putz! Eu nunca imaginei que passaria a eternidade com o dedo do Toshio enfiado no meu olho.
- Você que é feliz diria, com voz fanhosa, outro pior localizado.)
Talvez não houvesse tanto descontentamento.
(Uma chinesa exclamaria: - Nossa, se eu soubesse que seria este kama-sutra, teria morrido antes.)
Tudo só poderá ser esclarecido junto aos mistérios da morte.
(- Brincadeira! Eu acabei com o nariz na axila do Yakuda.
- Levanta as mãos para os céus, pois eu estou em condições muito mais desagradáveis.
- Se eu conseguisse levantar as mãos, afastaria este dedo do Toshio do meu olho.)