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terça-feira, 1 de março de 2011

PRA RELAXAR...OU NÃO!

O CÓS

Marina da Silva

O cós é aquela parte da roupa – calças, saias, bermudas, shorts – conhecida popularmente como cintura, onde se põe o cinto e estava ocupando minha cabeça e enchendo minha paciência desde que saí de casa com uma calça nova de cós baixo, na verdade muito baixo.
Passei boa parte do dia subindo a calça ou espichando para baixo a blusa para esconder, entre outras coisas, dois pneus Good-year nas laterais, dois simpáticos lombinhos, como os chamou o cirurgião plástico, paralelos ao umbigo e uma auto-estrada de flanco a flanco deixada por uma enorme cicatriz no baixo ventre, milímetros acima do monte de Vênus.
A caminho de casa, praguejando contra a bendita calça, dei de cara com uma lojinha na rua Rio de Janeiro com o seguinte cartaz: Temos calça de cós alto.
_ Aleluia! Pensei alto. Até que enfim o reinado do cós baixo está terminando. Entrei curiosa, olhei os jeans e outras calças, achei-os um tanto comportados, sem nenhum rasgo, bordado ou lantejoulas, nada fashion e perguntei o preço.
_ Sessenta e nove e noventa! Está na promoção, um precinho ótimo!
_Uia! Pensei comigo. Se ela soubesse que essa miserável cós baixo fashion custou só quatorze e noventa e nove... Agradeci me safando com a desculpa do “vou esperar o pagamento sair” e continuei rumo ao ponto de ônibus na infeliz ginástica do levanta e puxa.
Segui em frente reparando as pessoas, mulheres como eu, usando calças ou saias cós baixo. Tirando uma ou outra magrinha, cinturinha delineada e tal, a maioria poderia entrar na classificação de gordinhas, cheinhas, obesas. A moda que começou lá com a Madona, aqui, pegou feio a lambada, axé, funk, hip hop, forró, pagode e se espalhou como gripe numa influenza sobre todas as confecções do mundo, pelo menos do lado ocidental.
No começo até que era legal sair do cós Jeca Tatu, cintura logo abaixo do peito e descer um pouco, na altura do umbigo. O problema é que o cós divorciou-se definitivamente da cintura e continuou a descida rumo ao cóccix, crista ilíaca e ao monte de Vênus. O caso deixou de ser estar ou não na moda; sem outra opção acabou por se tornar um problema gravíssimo de poluição visual. A cada descida do cós, maior a exposição de massas adiposas, pêlos, tatuagens de gosto duvidoso, saliências indesejadas, pintas, manchas e no meu caso, lombadas, pneus e cicatrizes. Classifiquei os modelos, num momento de raiva, desta forma: cós baixo – aquele que mostra levemente a barriga, o umbigo e ainda consegue esconder uma e outra gordurinha; cós extremamente baixo: deixa a banha livre e solta e atendendo a lei da gravidade, caída, despencada e de quebra presenteia a pessoa com uma segunda cintura; e o cós pornográfico, que além das impropriedades dos dois acima, deixa à mostra o monte de Vênus, os pêlos pubianos e até o cofrinho!
Tudo bem que dá para perdoar, não muito, algumas gordurinhas extras em qualquer idade. Um excessinho vá lá, mas um enorme saco de banha caindo pelas tabelas, dobrando-se sobre o cós, já é uma exposição desnecessária ao ridículo.

_ Mas ninguém é obrigado a usar o cós baixo! Bradariam a mim aquela gente da patrulha.
_ Mas pôxa vida, eu adoro jeans, saias, shorts e só produzem o tal cós baixo! Essa onda pegou tudo, tudo!
_ Uai? Use roupas para pessoas da sua idade! Tiradinha de algum debochado que apesar da juventude tem a mente presa lá no século XIX ou pior, na idade média.
_ Sai fora Véio! Sou uma mulher do terceiro milênio e se não me engano há mais de duzentos anos Balzac resgatou a mulher de trinta, Roberto Carlos ainda no século XX cantava as mulheres de quarenta e cinqüenta e já faz um bom tempo que a vida _ hiper produtiva foi esticada para os sessenta/setenta e a melhor idade só chega a partir dos noventa! Tá ligado?